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Palavras - Márcia Bittar

Palavras 2Desde pequena eu gosto das palavras. Minha mãe conta que eu adorava ouvir atenta a conversa dos adultos (ouvir..., porque naquele tempo as crianças não se metiam em conversas de adultos) para depois enchê-la de perguntas sobre o significado das palavras.

Talvez daí tenha surgido o meu amor pelo Direito, já que as palavras são o instrumento de trabalho dos advogados.

Fui crescendo, e dentro de mim crescia a curiosidade pelo significado de cada palavra.

Foi então que na escola, me apresentaram o “Aurélio”!

Muito rapidamente nos tornamos grandes amigos. Éramos inseparáveis!!!

Ele me ensinava, calado, tudo o que eu queria saber sobre as palavras. Tínhamos um relacionamento íntimo e muitas vezes até dormíamos juntos, porque nas minhas leituras noturnas ele era indispensável.

Como todas as amizades, a nossa foi se fortalecendo e ao longo do tempo e em razão de nossa intimidade, eu ousava discordar de suas definições. Ele era sempre muito sério, compenetrado, por vezes inflexível, e não admitia interpretações diferentes.

Nossas conversas algumas vezes me decepcionavam, já que seu posicionamento diante de certas palavras era absolutamente contraditório em relação à realidade.

Aurélio teimava em acreditar que quando as palavras são escritas ou ditas e, por consequência, lidas e ouvidas, não podem perder o sentido.

Fui crescendo e com o tempo fui percebendo que nem sempre é assim. Percebi que as palavras colocadas no papel têm um sentido, mas quando elas são ditas... ganham força, cor, algumas até ganham até um perfume! Mas o certo é que todas elas, quando são expressas de forma verdadeira, ditas com a alma ... ganham sentimento!

Acho que por eu acreditar firmemente nisso, Aurélio foi se distanciando de mim, ou eu dele ... ainda não sei.

A vida me levou a fazer minhas próprias interpretações, e hoje leio mais com os ouvidos do que com os olhos, ouço mais com o coração do que com os ouvidos.

Aprendi que a raiva é vermelha, a dor é roxa e a serenidade é  branquinha....

Que o sol é mais que um astro do sistema solar, já que é ele que enche meus dias de alegria. Aprendi que saudade dói e que sorrir é muito mais do que o ato de mover os lábios sem gargalhar!

Para espanto do Aurélio, descobri que as palavras têm até sabor! A tristeza, por exemplo é amarga, e o que dizer do Amor... ahhh o Amor...  ele é doce... e a gente sempre quer mais.

Mas acho que o Aurélio desanimou mesmo comigo quando eu lhe disse que há palavras sem sentido algum, como a distância, a coincidência, o lamento e tantas outras!

Mas a lição mais importante que aprendi sobre as palavras é que elas são imortais. E as que são ditas com o coração... essas... nem me fale... essas são mesmo eternas !!! Ficam gravadas na alma da gente pra sempre. A maneira com que são ditas pode ser tão forte, que muitas vezes são capazes de nos derrubar, ou então ... nos levar às alturas.

Aprendi que por todas essas razões, é preciso ter cuidado com elas. É preciso ter sabedoria para usá-las e que, muitas vezes, melhor que dizê-las... é ouvi-las!

Aurélio ainda é um amigo muito querido. Apesar de nossas brigas ele continua fazendo parte de minha vida. Mas acho que nós dois aprendemos que ninguém é dono da verdade e, mais do que isso, que a vida é que vai nos ensinado a interpretar, entender e sentir as palavras, cada um a seu modo, cada um em seu caminho e cada um a seu tempo.

Palavras não são só palavras! São sentimentos que a gente expressa muitas vezes sem saber. Às vezes são  pronunciadas com os olhos, e essa é a sua melhor versão... a mais bonita, porque assim é que elas são  sentidas  pelo coração!

Palavras!

Dezembro 2010

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